Apologia ao erro

setembro 28, 2007

Sempre fui uma grande defensora do erro; ninguém pode viver plenamente feliz sem experimentar a errância. É uma das maiores conquistas do ser humano!

Existe coisa mais chata e monótona do que uma vida cheia de acertos, completa e feliz, feito um conto de fadas? Chegar em casa após o trabalho, dirigindo o carro do ano e encontrar sua mulher perfeita esperando para o jantar pronto, ao lado de seus filhos lindos e sorridentes? Como essas pessoas podem realmente desejar uma vida tão insosa?

Pode parecer absurdo, mas garanto que existem diversos e reais seguidores desse ideal anti-hollywoodiano: são os dissidentes do acerto.

Não tenho dúvida de que um dos principais ícones da apologia ao erro é o samba, afinal, grande parte de seus apóstolos adotaram-no como opção de vida. Essa simples escolha, por si só, já denota um elogio ao desatino.

Não é preciso muito esforço para notar que o desacerto está sempre presente no samba. Ao mesmo tempo em que identificamos um eterno lamento por novamente haver caído em tentação, há uma constante exaltação ao ato de errar.

A alusão ao erro no samba é uma espécie de pranto masoquista, que não consegue se desprender daquilo que lhe causa dor. Traça uma relação contraditória com o sofrimento, pois é este que lhe traz momentos de êxtase e euforia. Eis o martírio como origem do prazer.

São inúmeros os exemplos que podemos extrair de letras de samba que confirmam a glorificação do erro, seja em menções explícitas a tal vocábulo, como Nelson Cavaquinho, em “A Flor e o Espinho” (“Eu só errei quando juntei minh’alma à sua”; Ataulfo Alves em “Errei sim” e “Errei, erramos”; Cartola, em “Sim”(“Por que é que eu senhor, que errei pela ver primeira, passo tantos dissabores e luto contra a humanidade inteira?”), “Amor proibido” (“Sei que errei, errei inocente”) e “Grande Deus” (“Perdoai-me, sei que errei um dia”); Paulinho da Viola, em “Reverso da Paixão (“Quem é que tem razão, se o erro, enfim, se paga com tanta solidão”; Dona Ivone Lara e Jorge Aragão em “Tendência” (Quem sabe essa mágoa passando você venha se redimir dos erros que tanto insistiu por prazer”), dentre tantos outros.

Isso sem contar as demais músicas em que a referência ao modo de vida ou conduta desacertada é percebida não sintaticamente, mas em seu conteúdo, nas entrelinhas de cada estrofe. São exemplos: “Homenagem ao Malandro”, de Chico Buarque, “Oh seu Oscar”de Wilson Batista e Ataulfo; “Se é pecado sambar”, de Manuel Sant’anna.

Além disso, o samba sempre foi marginalizado e por isso, enxergado como um erro. Assim, entregar-se ao erro, pode ser entendido em diversas concepções, como sucumbir ao pecado, à boemia, à traição, à vadiagem e à malandragem. Ou seja, todo e qualquer postura que não se enquadre como ideal a ser perseguido pelo “homem de bem de classe média”).

Apesar de sua repulsa pela sociedade moderna, viver na errância proporciona uma maravilhosa e falsa sensação de liberdade. Inseridos num contexto de aparente democracia e ordem, poucos têm consciência da ausência de livre arbítrio para romper alguns paradigmas, como não se sujeitar às imposições do mercado, ter coragem de consumir e se portar de forma diferente da propagada pela mídia.

Por isso, a descoberta do erro pode tornar-se cada vez mais sedutora e ebriante e, da mesma maneira, extremamente perigosa. Torna-se um vício. A adoração ao erro traz-nos a sensação de experimentar uma nova aventura a cada semana e, ao final, transforma-nos em escravos de suas lamúrias e deleites. 

Ah, mas existe cárcere mais anárquica do que esta?

Blog da Mineira Guerreira!

setembro 25, 2007

Enquanto ando sem tempo para postar e escrever minhas histórias, aproveito o espaço para divulgar coisas interessantes para os meus amigos amantes do samba.

Foi criado o blog oficial sobre Clara Nunes, com informações sobre a mineira e fotos preciosas. Um prato cheio para os adoradores da nossa querida filha de Ogum com Iansã!  

http://www.claranunesvozdeouro.blogspot.com/

Momento de divulgação!

Sexta e Sábado vai rolar um show super bacana na Chopperia do Sesc Pompéia: “Berço do Samba de São Matheus”, com participação de Quinteto, Nei Lopes e Velha Guarda da Nenê.Abaixo, trago a resenha disponibilizada pelo SESC. 

Show de lançamento do CD homônimo – produzido pelo Selo SESC – com os músicos, intérpretes e compositores da comunidade de São Mateus, zona leste de São Paulo, e produção artística do Quinteto em Branco e Preto. Participação especial desse Quinteto, de Nei Lopes e da Velha Guarda da Nenê de Vila Matilde. Choperia. Não é permitida a entrada de menores de 18 anos. 1 R$ 12,00; R$ 9,00 (usuário matriculado). R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). R$ 6,00 (acima de 60 anos e estudantes com carteirinha).
Dia(s) 28/09, 29/09 Sexta e sábado, às 21h.
SESC Pompéia

As facadas no estômago!

setembro 21, 2007

Essa eu devo ao meu amigo Lú Tomé!

Certo dia, conversávamos sobre os tipos de pessoas que nos deixam realmente “balançados”, quando este, numa de suas sacadas geniais, concluiu: “não existe um modelo específico e nem mesmo a beleza é tão relevante. O que realmente conta são as facadas.”

 E não é que ele tem razão? São as facadas que sentimos no estômago assim que encontramos ou conhecemos uma pessoa que nos dão a dica de que estamos diante de alguém capaz de fervilhar os nossos sentimentos. 

Porém, notei que, em geral, as pessoas identificam os responsáveis por suas punhaladas pelo menos por duas diferentes maneiras. Alguns, possuem uma visão mais platônica e buscam encontrar sempre as mesmas características físicas ou de caráter, com o objetivo de selecionar seu atirador de facas. 

Já outros, como eu, carecem de algum contato físico para se tornarem alvo das facadas. Logo da primeira vez, sou capaz de identificar se estou na presença de um homem dotado de potencial para esfrangalhar meus órgãos. Meu termômetro são os primeiros beijos: a depender da intensidade e da temperatura, em alguns poucos minutos, facilmente sei afirmar se se trata de um vulcão dormente, prestes a entrar em estado de erupção, ou simplesmente água em estado líquido, em vias de processo de solidificação. 

Se a escolha de uma dessas posições fosse realmente possível, recomendaria, sem sombra de dúvidas, a primeira. Apesar de parecerem sempre idealizar seus próprios carrascos, num ato de quase contemplação, geralmente, essas pessoas deixam-se levar e apaixonar muitas vezes por simples malabaristas, que acabam, com o tempo, tornando-se os seus atiradores de facas. 

Já os tidos como supostos carnais, na realidade, acabam se transformando nos seres mais sonhadores. Isso porque, ao se deixarem seduzir pelo momento, pela intensidade e, ao imaginarem que encontraram alguém com potencial para fazê-los flutuar, muitas vezes não conseguem se desprender desse ideal. E, ainda que por algum obstáculo do destino essa aspiração não se chegue a concretizar, acabam prendendo-se ao desejo não realizado. 

Bom, enquanto eu não conseguir me transformar em uma engolidora de facas, contentarei-me em repetir a máxima de Sêneca que, aliás, deveria ser lembrada e apreendida por todos, diariamente: “A expectativa é o maior impedimento para viver, que fica ligada no amanhã e perde o hoje.” 

Vejo Fabiana Cozza surgir no palco com os pés descalços, vestindo um longo e colorido vestido. Sempre achei que subir no palco com os pés desnudos era um sinal de total entrega do artista; uma vontade de chegar mais perto da platéia e sentir a vibração do seu público. 

Fabiana Cozza é o tipo de artista que não cabe em si, quem dirá em uma mídia de CD.

Sim, ela transcende seus próprios discos, não canta apenas, atua, intepreta, vive cada música como se fosse uma explosão e transborda emoção e paixão em cada número. 

Quem conheceu seu primeiro trabalho – muito bom, diga-se de passagem – e não acompanhou sua trajetória até o lançamento deste segundo CD, ficará surpreso ao saborear “Quando o céu clarear”. Há um abismo entre os dois. Simplesmente, porque Fabiana vive um momento de superação. 

E que ninguém se contente apenas em ouvir o seu disco, ou a assistir um dos vídeos postados no youtube. Fabiana é muito mais. Precisa ser assistida e destrinchada pessoalmente. 

Aqueles que tiveram o privilégio de conferir o show de lançamento de seu CD neste último final-de-semana, no Sesc Pinheiros, sem dúvida, não esquecerão da energia contagiante de tal espetáculo. 

Milimetricamente planejado, arranjos e rodopios precisos. Algum desavisado, ao ler este post pode acreditar que se trata de uma apresentação extremamente técnica, quase um João Gilberto de saias. 

Eu até poderia fazer uma comparação com o João, guardadas as devidas proporções, que a união perfeita da voz rompante e estremecedora de Fabiana e as batidas da forte e marcada percussão, está para o casamento do violão e voz do nosso gênio da bossa. 

Mas, em Fabiana, tudo é exuberante e sempre, permeado de muita emoção. Por isso, ainda que técnica, sua performance é sempre visceral. 

A interpretação de “Tendência”, música de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão, provavelmente rasgou o coração de quase todo o público presente. Inicia num tom dramático e lamentoso, ao som do piano e voz, e encerra com uma daquelas frases contraditórias que só os apaixonados são capazes de proferir: “se precisar pode me procurar”, num cenário desesperador em que uma chorosa cuíca implora pelo retorno do causador de tamanha dor. 

Isso sem contar com outras intepretações imperdíveis, como a releitura de “Canto de Ossanha”, com a participação de músicos cubanos, a presença marcante de Dona Ivone Lara… 

E Fabiana  despede-se de sua platéia com ecos, entonando: “Incandeia, incandeia, incandeia meu candiá (…)”.

 

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